O Cadeado
Podia ser um simples cadeado de chaves que foi fechado ao acaso e aberto com uma tesoura especial de corrida mas esse cadeado, sem saber, teve um significado incrível no meio de um dia fantástico que continuaria a ser extraordinário se a situação do cadeado não tivesse acontecido...
É incrível como podemos dar um sentido a cada momento da nossa vida... Podem dizer era um simples cadeado; ou, também já me aconteceu isso de fechar o cadeado e deixar as chaves no cacifo e qual é a importância disso?! Cada pessoa vê o que vê no que lhe vai acontecendo no dia a dia: umas pessoas vêem tudo, outras não vêem nada... E está tudo bem. :)
O cadeado já tem uns 20 ou 30 anos, não sei precisar: sei que já o conheço há muito tempo e que me deu uma lição incrível e, por isso, estou a pensar emoldurá-lo para recordar essa fração de segundos em que estava plenamente conectada com o momento e dispersei, como tantas outras vezes, não segui a voz que falava por trás de tudo o que estava a acontecer e aconteceu o que tinha de acontecer e, no segundo, do clique final pum levei um chapadão daqueles bem bons ahahah
Era uma tarde, como outra qualquer, estava no ginásio e tinha chegado uma hora mais cedo para a última massagem do pacote que comprei para me presentear antes do meu aniversário.
Há uns dias, quando tomei a decisão de entregar a minha carta de rescisão do contrato como Coordenadora de um projeto de intervenção social, decidi que iria passar a vestir-me melhor: uma futilidade como outra qualquer ou não! Um cuidar do templo em que habito, embelezá-lo como as gopis fazem quando esperam por Krsna. Enquanto exerci esse papel a nível profissional, vestia-me com as roupas menos boas que tinha porque podiam sempre estragar-se em alguma atividade com as crianças e decidi que iria começar a usar as roupas que estão escondidas dentro dos roupeiros.
E, no dia em que o cadeado me deu esta lição, estava ou sentia-me gira e quis pavonear-me pelo ginásio nesse tempo de espera pela massagem. Tinha tempo para beber uma meia de leite vegetal e comer um brownie vegan. Fui arrumar a mochila, o tapete e a mala no cacifo e, em escassos segundos, tudo aconteceu...
Visto a roupa de dar aula? Não!
Tiro as botas?! Calço os ténis? Não, as calças vão arrastar pelo chão e não vou estar tão poderosa visualmente e eu assumi o compromisso de, tal como as gopis, estar sempre ou quase sempre esteticamente impecável. (e só mesmo Krsna sabe como, às vezes, custa sair de casa só para dar aula e não ir vestida com calças de fato de treino ahahah)
Hesitei... E fechei o cadeado e pumba, no segundo em que ouvi o clique, a vozinha disse a chave estava presa nos atacadores dos ténis que estive sempre a dizer para calçares ou, pelo menos, para olhares para eles... Ups! Ri!!! E disse: Luísa, já era hora de estares mais atenta à tua voz interna...
Não é que eu não a tenha ouvido só que não foi uma escuta ativa, com presença!!! E está tudo bem, sorri porque a vida é mesmo assim: feita de lições e não vale a pena não sorrir!!!
E, como é óbvio, lá esvoacei eu por entre pensamentos durante o lanche antes da massagem que tão bem me soube. Pensei em tantas as vezes em que, num curto espaço de tempo que dá para dizer mil e um, percebi que tinha havido sinais, alertas que nem sempre quis ouvir por me dar jeito, porque não querer sair da zona de conforto por mais desconfortável que ela fosse...
O mais importante é aceitar e estar de coração aberto, sem ter um cadeado a fechá-lo para as experiências da vida nas quais descobrimos o sentido da vida.
Foram várias as mudanças na minha vida desde o início deste ano civil e muitos hábitos a retomar e outros a inserir no meu dia a dia e talvez por isso não te tenha ouvido vozinha ou, então, estou só a arranjar uma grandessíssima desculpa para não assumir que podia e posso estar muito mais atenta e no presente momento!!! Mas também o que seria desta vida se não tivesse um pouco de dispersão? É que é nessa dispersão que nos damos conta de que dá para ir ainda mais fundo e conectar ainda mais intensamente com o nosso Ser.
E esta foi a história do cadeado arrombado...
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